Introdução: O comprometimento cognitivo é frequente na esclerose múltipla (EM), porém sua evolução em longo prazo e sua relação com a atrofia cerebral regional e a reserva cognitiva ainda não estão completamente esclarecidas. Este estudo teve como objetivo investigar a trajetória cognitiva ao longo de 12 anos em pacientes com esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR) e avaliar se medidas estruturais cerebrais e a reserva cognitiva estavam associadas aos desfechos cognitivos em longo prazo.
Métodos: Neste estudo longitudinal de coorte, foram incluídos 42 pacientes com EMRR e 30 controles saudáveis, submetidos a avaliações clínicas e neuropsicológicas repetidas no início do estudo (2010) e nos anos de 2012, 2016 e 2022. Os domínios cognitivos avaliados incluíram memória verbal, memória visual, velocidade de processamento da informação e fluência verbal. A ressonância magnética cerebral foi utilizada para quantificar os volumes do tálamo, hipocampo, estriado, corpo caloso e córtex cerebral. As trajetórias longitudinais foram analisadas por meio de modelos lineares de efeitos mistos. Modelos de regressão multivariada foram utilizados para investigar as associações entre os volumes cerebrais regionais e os desfechos cognitivos. Adicionalmente, modelos de regressão hierárquica com estimativas de bootstrap corrigidas para viés e aceleradas (BCa) foram empregados para avaliar as contribuições da reserva cerebral e da reserva cognitiva.
Resultados: Os pacientes com EMRR apresentaram maior incapacidade neurológica e pior desempenho cognitivo em comparação aos controles saudáveis durante o seguimento. Após ajuste para escolaridade, foram observadas interações significativas grupo × tempo para a velocidade de processamento da informação (p=0,017) e para a fluência verbal (p=0,033). O volume talâmico foi menor nos pacientes com EMRR em comparação aos controles saudáveis em todos os momentos avaliados. Os volumes basais do hipocampo e do estriado apresentaram associações independentes com os desfechos de memória verbal (p=0,003 e p=0,006, respectivamente). Além disso, a variação longitudinal do volume estriatal esteve associada à memória visual (p=0,004) e à fluência verbal (p=0,034). A reserva cerebral não apresentou associação significativa com os desfechos cognitivos avaliados. Em contraste, maior reserva cognitiva esteve associada a melhores desfechos de memória verbal (BCa B=2,010; p<0,001) e fluência verbal (B=1,280; p=0,023), além de estar associada a menor declínio cognitivo global (B=?0,723; p=0,001).
Conclusão: Ao longo de 12 anos de acompanhamento, os pacientes com EMRR apresentaram alterações cognitivas persistentes associadas à atrofia cerebral regional. O envolvimento do estriado destacou-se como importante correlato estrutural dos desfechos cognitivos em longo prazo, particularmente nos domínios de memória e fluência verbal. Por outro lado, uma maior reserva cognitiva esteve associada a desfechos cognitivos mais favoráveis e a menor declínio cognitivo global. Esses resultados reforçam a importância da integração entre avaliação cognitiva longitudinal, neuroimagem cerebral regional e medidas de reserva cognitiva no acompanhamento e na investigação da evolução da esclerose múltipla.