A doença falciforme constitui uma das hemoglobinopatias hereditárias mais prevalentes no mundo e frequentemente requer suporte transfusional ao longo da vida. Apesar dos benefícios clínicos da transfusão de concentrados de hemácias, a aloimunização eritrocitária permanece como uma das principais complicações associadas a essa terapia. Nesse contexto, variantes do gene RHCE têm sido associadas à ocorrência de incompatibilidades antigênicas não detectadas pelos métodos convencionais de compatibilização, favorecendo a formação de aloanticorpos, reações hemolíticas transfusionais e dificuldades na obtenção de hemocomponentes compatíveis. O presente estudo teve como objetivo desenvolver um protocolo transfusional para pacientes com doença falciforme portadores de variantes do gene RHCE, fundamentado na análise crítica das evidências científicas disponíveis. Para tanto, foi realizada uma revisão integrativa da literatura nas bases PubMed, Scopus, Web of Science, SciELO e Google Scholar. Após aplicação dos critérios de elegibilidade, 28 estudos compuseram o corpus final da revisão. Os estudos incluídos apresentaram considerável heterogeneidade metodológica, abrangendo pesquisas observacionais, investigações laboratoriais com correlação clínica, análises retrospectivas, estudos multicêntricos e revisões da literatura, com predomínio de evidências classificadas como nível IV. A análise demonstrou elevada diversidade molecular do gene RHCE, especialmente em populações com ancestralidade africana, bem como associação de determinadas variantes com aumento do risco de aloimunização, reações hemolíticas transfusionais tardias e dificuldades na compatibilização sanguínea. Entretanto, observou-se que a relevância clínica das variantes não é uniforme, havendo diferenças importantes entre os alelos descritos e limitações na capacidade de predizer o risco imuno-hematológico individual. Também foram identificadas lacunas relacionadas à ausência de protocolos padronizados, à escassez de estudos prospectivos e à limitada correlação entre achados moleculares e desfechos clínicos. Com base na síntese crítica das evidências, foi elaborado um protocolo transfusional estruturado, fundamentado na integração de informações clínicas, sorológicas e moleculares, contemplando a estratificação do risco imuno-hematológico, a definição do nível de compatibilização transfusional e recomendações específicas para diferentes contextos moleculares e clínicos. Conclui-se que as variantes do gene RHCE representam importante desafio para a prática transfusional em pacientes com doença falciforme e que estratégias estruturadas de manejo podem contribuir para maior segurança transfusional, redução do risco de aloimunização e aprimoramento da tomada de decisão clínica.