Rodolfo De Carvalho Pacagnella
Conrado Milani Coutinho
Leonardo Tomazeli Duarte
Luiz Francisco Cintra Baccaro
Adriano José Pereira
Suplentes
Marcelo Santucci França
Benilton de Sá Carvalho
Marcelo Luís Nomura
Resumo
Introdução: O parto prematuro permanece como um importante problema de saúde pública, associado a elevada morbidade e mortalidade neonatal. Globalmente, estima-se que entre 10% e 11% das gestações resultem em nascimento antes de 37 semanas. Apesar de avanços na assistência obstétrica, a capacidade de identificar precocemente gestações em risco tem potencial de ser aprimorada. Em parte, isso se deve ao fato de que os processos fisiológicos envolvidos na gestação são dinâmicos, enquanto a maior parte dos marcadores clínicos disponíveis baseia-se em medidas pontuais. Nesse contexto, o monitoramento contínuo da temperatura corporal materna por dispositivos vestíveis surge como uma alternativa para capturar, de forma longitudinal, padrões fisiológicos potencialmente associados a desfechos adversos. Objetivo: Investigar o comportamento da temperatura corporal materna ao longo da gestação e avaliar seu potencial como marcador fisiológico para a predição precoce do parto prematuro espontâneo. Métodos: Estudo conduzido em uma coorte multicêntrica de gestantes nulíparas de baixo risco, acompanhadas desde o segundo trimestre até o parto. A temperatura corporal foi monitorada continuamente por actigrafia de punho. Foi desenvolvido um pipeline analítico reprodutível para processamento, padronização e controle de qualidade dos dados, permitindo a análise de mais de 4,1 milhões de observações. Foram avaliadas métricas de tendência central e de variabilidade térmica, incluindo desvio-padrão, coeficiente de variação e intervalo interquartil, além de padrões circadianos e segmentação por períodos gestacionais. Modelos preditivos supervisionados foram aplicados para estimar o risco de parto prematuro espontâneo, com posterior análise de desempenho e interpretabilidade. Resultados: A temperatura média materna manteve-se relativamente estável ao longo da gestação, sem diferenças relevantes entre os grupos. Em contraste, métricas de variabilidade térmica apresentaram maior capacidade de discriminar gestações a termo e prematuras. Observou-se que a temperatura corporal materna permaneceu consistentemente superior à temperatura ambiental, sugerindo a existência de um gradiente térmico regulado e um acoplamento parcial entre ambiente e fisiologia materna. Nos modelos preditivos, variáveis relacionadas à variabilidade térmica, organização circadiana e evolução temporal ao longo da gestação contribuíram para a estratificação de risco. Conclusão: A temperatura corporal materna, quando analisada de forma contínua e dinâmica, oferece informações relevantes que não são capturadas por medidas pontuais. Em particular, métricas de variabilidade e organização temporal parecem refletir aspectos importantes da regulação fisiológica durante a gestação. Os achados reforçam o potencial do uso de biomarcadores digitais no monitoramento materno e na identificação precoce de gestações em risco de parto prematuro.