Nelson Filice De Barros
Nely Aparecida Guernelli Nucci
Pamela Siegel
Suplentes
Carmen Silvia Passos Lima
Thalyta Cristina Mansano Schlosser
Resumo
O objetivo desta dissertação é analisar a construção da experiência do morrer no filme Gritos e Sussurros (1972), de Ingmar Bergman, à luz da Psicologia Histórico-Cultural, em articulação com os referenciais dos cuidados paliativos e da qualidade de morte. Parte-se da constatação de que, no contexto oncológico brasileiro, o sofrimento no fim da vida permanece frequentemente sem reconhecimento adequado de suas dimensões comunicacionais, relacionais e existenciais, apesar do elevado número de óbitos por neoplasias malignas ocorridos em ambiente hospitalar. Adota-se abordagem qualitativa, de natureza teórico-analítica, por meio de análise fílmica orientada por categorias temáticas construídas a partir da interlocução entre autores que problematizam as condições históricas e institucionais do silenciamento do morrer e a Psicologia Histórico-Cultural de Vygotsky, mobilizada como referencial para compreender os processos pelos quais essas condições constituem a experiência subjetiva do sujeito que morre. A análise evidencia que o sofrimento da personagem Agnes não decorre apenas do adoecimento físico, mas da ausência de mediações simbólicas capazes de sustentar suas enunciações como experiência compartilhada. Foram construídas quatro categorias analíticas articuladas: o silêncio, compreendido como ruptura de mediação simbólica; o vínculo relacional, entendido como condição de elaboração da experiência; o testemunho, concebido como dimensão estruturante do cuidado, anterior a qualquer resposta técnica; e a desigualdade social, que determina, também no plano ficcional, quem cuida, em que condições e com quais recursos. Os resultados indicam que a qualidade de morte não se define pela ausência de sofrimento ou apenas pelo controle de sintomas, mas pelas condições simbólicas, relacionais e comunicacionais que permitem ao sujeito nomear, elaborar e compartilhar sua experiência de finitude. Discute-se a correspondência entre essas categorias e o cenário brasileiro contemporâneo, marcado pelo déficit estrutural na oferta de cuidados paliativos e pelas desigualdades no acesso ao cuidado qualificado. Como desdobramento aplicado da pesquisa, em consonância com a natureza deste mestrado profissional, desenvolveu-se um produto técnico audiovisual composto por três vídeos destinados à sala de espera do Ambulatório de Oncologia Clínica/Quimioterapia do Hospital de Clínicas da UNICAMP, concebido como dispositivo de mediação simbólica voltado ao reconhecimento da experiência do adoecimento por pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde. Conclui-se que o cuidado no fim da vida não se define apenas pelas intervenções dirigidas ao corpo, mas pelas condições oferecidas para que a experiência do sujeito seja nomeada, compartilhada e reconhecida, deslocando o eixo explicativo do sofrimento do do plano exclusivamente clínico para o plano relacional, comunicacional e simbólico.