As representações sociais de surdos sobre a aprendizagem do português na modalidade escrita
A educação e todos os fenômenos referentes à linguagem (e não apenas à língua)
dos surdos foram e continuam sendo um eixo central nas mobilizações da comunidade
surda e de todos aqueles interessados na inclusão escolar ou social desse grupo
minoritário. No decorrer da história das comunidades surdas, muitos pressupostos
acerca do ensino, do desenvolvimento e da modalidade linguística foram impostos
pelos ouvintes que detinham o poder político para circunscrever os modos de vida dos
surdos. Nas últimas décadas, mudanças de caráter multiculturalista empoderaram
grupos sociais marginalizados, auxiliando-os em uma guinada na esfera social e
política, culminando na definição de direitos e políticas públicas que atendessem
especificamente às necessidades e diferenças até então invisibilizadas. A
comunidade surda levantou a bandeira de um ensino bilíngue, colocando a Língua de
Sinais na dianteira das práticas de ensino-aprendizagem, além de posicioná-la como
meio necessário para o letramento. Documentos oficiais postulam, então, um ensino
bilíngue para surdos, que, mesmo bem amparados linguisticamente por sua língua
sinalizada, ainda precisam aprender a língua da maioria ouvinte. Esse processo de
bilinguismo compulsório pode ser sentido e percebido de maneira simbólica por
surdos, sobretudo quando os processos de ensino do português realizados por
ouvintes remetem a práticas ouvintistas. O objetivo desse trabalho foi analisar as
representações de surdos adultos bilíngues sobre a aprendizagem e utilidade da
língua portuguesa na modalidade escrita. Trata-se de uma pesquisa qualitativa,
realizada por meio de entrevistas em Língua de Sinais com 6 surdos adultos aprovada
pelo CEP pelo parecer 7.374.780. As entrevistas foram conduzidas com apoio de uma
intérprete de Libras e seguiram um roteiro semiestruturado, realizadas por
videochamadas. Os critérios de inclusão foram: participantes surdos, adultos, com a
Libras como primeira língua e o português na modalidade escrita. A análise dos dados
foi realizada com base na análise de conteúdo, na qual os temas mais recorrentes nas
falas dos entrevistados foram categorizados em núcleos de sentido e articulados com
a literatura científica. Os resultados foram organizados em três categorias temáticas.
A categoria 1, referente aos modos de aprendizagem da escrita, parceiros de
comunicação e papel da escola e dos educadores, evidenciou que a aprendizagem
da língua portuguesa ocorreu de forma predominantemente compulsória e, muitas
vezes, sem apoios linguísticos adequados às necessidades dos participantes. A
categoria 2, relacionada às interações entre professores ouvintes e aprendizes
surdos, revelou despreparo pedagógico, dificuldades comunicacionais e a presença
de representações ouvintistas que atravessavam práticas e discursos educacionais.
A categoria 3, voltada às representações sociais sobre os usos da língua portuguesa,
mostrou que a língua foi percebida como instrumento de acesso ao mundo ouvinte,
autonomia e proteção diante de vulnerabilidades sociais e linguísticas. Além disso,
foram identificadas barreiras atitudinais, relacionais, tecnológicas e afetivas que
impactam