Wilson Nadruz Junior
Audes Diógenes de Magalhães Feitosa
Otavio Rizzi Coelho
Rodrigo Bezerra
Denise Engelbrecht Zantut Wittmann
Suplentes
Thiago Quinaglia Araújo Costa Silva
Marcos Ferreira Minicucci
Annelise Machado Gomes de Paiva
Resumo
As doenças cardiovasculares, impulsionadas pela hipertensão arterial (HA), representam um desafio global de saúde, com significativa morbimortalidade cerebrovascular. A avaliação tradicional do risco tem sido limitada pela natureza agregada dos marcadores, como a espessura médio-intimal da carótida (EIMc), que não diferencia adequadamente os processos ateroscleróticos da camada íntima (EIc) do remodelamento pressórico da camada média (EMc). Além disso, a Pressão Arterial Periférica (PAP) pode não refletir fidedignamente a carga hemodinâmica central. Este trabalho teve como objetivo principal avaliar a relação entre as subcamadas da parede arterial carotídea (íntima, média e sua razão) com marcadores de risco cerebrovascular (volumes cerebrais e lesões de substância branca) e com as medidas de pressão arterial (central e periférica) em pacientes hipertensos.
Para tanto, foram realizados dois estudos observacionais transversais. O Estudo 1 incluiu 97 indivíduos submetidos à angiografia coronária eletiva, onde a Pressão Arterial Central (PAC) foi medida invasivamente na aorta ascendente e comparada à PAP. Neste estudo, as espessuras da EIc, EMc e EIMc foram avaliadas por ultrassonografia de alta resolução para investigar sua associação com as diferentes medidas pressóricas. O Estudo 2 envolveu 30 pacientes hipertensos tratados, nos quais as subcamadas carotídeas foram mensuradas por ultrassonografia, e marcadores de risco cerebrovascular, como volume de substância cinzenta (VSC), volume de substância branca (VSB), volume talâmico e volume de lesões de substância branca (VLSB), foram determinados por Ressonância Magnética (RM) de 3T, utilizando toolboxes SPM12 e CAT12, além de segmentação por deep learning para VLSB. As análises estatísticas incluíram análises de regressão linear e por splines cúbicos restritos, para relações não lineares, com ajuste para covariáveis clínicas e demográficas.
Os resultados do Estudo 1 revelaram uma relação não linear em formato de "U invertido" entre a PAC sistólica e a EMc (p global=0.047) e EIMc (p global=0.025), com pico entre 150-160 mmHg, sugerindo que a EMc é o principal componente responsivo ao estresse pressórico, sem associação significativa da PAC com a EIc. Não foram encontradas associações significativas entre PAP e subcamadas carotídeas. No Estudo 2, o VSC demonstrou associação inversa com a razão EIc/EMc (p=0.026) e associação direta com a EMc (p=0.040). O volume talâmico também associou-se inversamente à razão EIc/EMc (p=0.036). Estas associações entre a razão EIc/EMc e o VSC (p=0.010) e volume talâmico (p=0.047) mantiveram-se significativas mesmo após ajuste para VLSB.
Conclui-se que a análise separada das subcamadas carotídeas, juntamente com a medição precisa da PAC, oferece uma compreensão mais refinada do impacto da hipertensão no sistema vascular e cerebral. A relação não linear entre PAC e EMc/EIMc, e a associação independente da razão EIc/EMc com medidas de atrofia cerebral, destacam o potencial desses marcadores para uma estratificação de risco mais acurada e o desenvolvimento de estratégias terapêuticas personalizadas para proteger a saúde cerebral e vascular de pacientes hipertensos.