Gustavo Anderman Silva Barison
Rose Luce Gomes do Amaral
Resumo
Introdução Os miomas uterinos (MU) são tumores benignos clonais, compostos por células musculares lisas, fibroblastos e proporções menores de células endoteliais e imunes. Estão frequentemente associados a sangramento menstrual intenso ou prolongado, dor pélvica, sintomas compressivos (urinários e gastrointestinais) e infertilidade, com impacto significativo na qualidade de vida das mulheres. Embora estudos ultrassonográficos mostrem prevalência superior a 70%, os sintomas clínicos ocorrem em 25–50% das mulheres, e os MU constituem a principal indicação de cirurgia ginecológica, respondendo por mais de 200 mil histerectomias anuais nos Estados Unidos. A ultrassonografia pélvica é o método de imagem de primeira linha, enquanto a ressonância magnética apresenta maior acurácia diagnóstica. Diante da multiplicidade de tratamentos clínicos e cirúrgicos disponíveis, fez-se necessário reunir, de forma sistematizada, as evidências oriundas de revisões Cochrane sobre o tema.
Objetivos Sumarizar as evidências disponíveis em revisões Cochrane sobre eficácia e segurança das opções terapêuticas disponíveis para mulheres na pré-menopausa com sintomas associados a MU, incluindo sangramento menstrual intenso, dor pélvica, sintomas compressivos e infertilidade.
Métodos Trata-se de uma overview de revisões sistemáticas, conduzida segundo as diretrizes PRISMA, com protocolo originalmente publicado na Cochrane Library. Como a Cochrane optou por não dar continuidade ao projeto original, dividindo-o em duas revisões separadas (tratamento farmacológico e cirúrgico), os autores obtiveram autorização para manter o estudo original e publicá-lo de forma independente. A busca foi realizada exclusivamente na Cochrane Database of Systematic Reviews, utilizando o termo "uterine fibroids", até junho de 2026. Foram incluídas revisões, protocolos e títulos Cochrane envolvendo mulheres pré-menopáusicas sintomáticas com diagnóstico clínico e/ou de imagem de MU, avaliando intervenções medicinais, complementares ou cirúrgicas. Dois investigadores extraíram os dados independentemente, seguindo a metodologia Cochrane para overviews; a qualidade metodológica foi avaliada pelo instrumento AMSTAR e a qualidade da evidência pelos critérios GRADE. Devido à heterogeneidade das variáveis, os dados foram sintetizados de forma narrativa, sem metanálise.
Resultados Foram identificados 23 artigos, dos quais 13 revisões sistemáticas foram incluídas após exclusões por critérios de elegibilidade. Todas as revisões pré-especificaram questões clínicas e critérios de inclusão, com extração de dados em duplicata; a qualidade da evidência variou de muito baixa a moderada, principalmente devido a dados assimétricos, inconsistência, ausência de cegamento e imprecisão. Para sangramento menstrual intenso, moduladores seletivos de receptores de progesterona (SPRMs) e análogos de GnRH mostraram aumento significativo da hemoglobina pré-operatória e redução do sangramento, com evidência de qualidade moderada a alta; mifepristona também demonstrou benefício comparado a placebo. Raloxifeno e a comparação entre LNG-IUS e outros tratamentos hormonais apresentaram evidências inconsistentes ou de baixa qualidade. Para dor pélvica, os análogos de GnRH reduziram significativamente os sintomas, enquanto mifepristona e SPRM não mostraram efeito superior a outras intervenções. Quanto à subfertilidade, os achados foram predominantemente inconclusivos: pré-tratamento com GnRH antes da miomectomia não alterou as taxas de gravidez, e não houve diferenças relevantes entre miomectomia laparoscópica e aberta nos desfechos reprodutivos; a embolização da artéria uterina pode estar associada a desfechos de fertilidade menos favoráveis que a miomectomia, porém com evidência de qualidade muito baixa.
Conclusão A evidência Cochrane disponível indica que SPRMs, análogos de GnRH e mifepristona são opções eficazes para o controle do sangramento menstrual intenso associado a MU, enquanto os análogos de GnRH também se mostram benéficos para alívio da dor pélvica. Em contrapartida, a evidência sobre desfechos reprodutivos permanece limitada e majoritariamente inconclusiva, especialmente quanto ao impacto de diferentes intervenções sobre as taxas de gravidez e fertilidade. A qualidade geral das evidências, predominantemente baixa a moderada, reforça a necessidade de estudos adicionais bem desenhados para subsidiar decisões clínicas mais robustas.