Vagner Antonio Rodrigues da Silva
Edilson Zancanella
Miguel Angelo Hyppolito
Suplentes
Eulalia Sakano
Joel Lavinsky
Resumo
Objetivo: Analisar o impacto da pandemia de COVID-19 na assistência pública à saúde auditiva no Brasil, considerando a variação do volume e da distribuição regional de procedimentos diagnósticos, terapêuticos e reabilitadores.
Métodos: Estudo retrospectivo, descritivo e ecológico, baseado em dados secundários extraídos do DATASUS/TabNet. Foram analisados procedimentos relacionados à saúde auditiva realizados entre janeiro de 2009 e dezembro de 2024, divididos em três períodos: pré-pandêmico (janeiro de 2009 a fevereiro de 2020), pandêmico (março de 2020 a dezembro de 2021) e pós-pandêmico (janeiro de 2022 a dezembro de 2024). Avaliaram-se audiometrias, emissões otoacústicas, potencial evocado auditivo de tronco encefálico, triagem auditiva neonatal, adaptações e reposições de aparelhos de amplificação sonora individual, implantes cocleares e próteses auditivas ancoradas no osso. Foram calculadas médias mensais, variações percentuais e razões de recuperação, além da distribuição proporcional dos procedimentos em relação à população de cada região. As análises foram realizadas por meio de modelos de séries temporais interrompidas e regressão simples.
Resultados: As audiometrias apresentaram redução nacional de 18,5% durante o período pandêmico, seguida de recuperação no período pós-pandêmico, com volumes 18,3% superiores aos observados antes da pandemia (razão de recuperação = 1,18). Em contraste, a triagem auditiva neonatal permaneceu estável durante a pandemia (-0,2%), mas apresentou redução de 15,4% no período pós-pandêmico, com pior desempenho na região Norte (razão de recuperação = 0,44). As emissões otoacústicas e o potencial evocado auditivo apresentaram recuperação expressiva no período pós-pandêmico, com aumentos de 31,1% e 55,0%, respectivamente. As adaptações de AASI apresentaram recuperação discreta (+7,8%), enquanto as reposições de dispositivos aumentaram 75,3% em relação ao período pré-pandêmico. Procedimentos relacionados ao implante coclear também apresentaram aumento no período pós-pandêmico. Persistiram importantes desigualdades regionais, com sub-representação das regiões Norte e Nordeste e maior concentração de procedimentos em São Paulo, Sudeste e Sul.
Conclusão: A pandemia de COVID-19 impactou significativamente a assistência pública à saúde auditiva no Brasil, com interrupção de procedimentos e recuperação heterogênea entre regiões e tipos de atendimento. Embora alguns indicadores tenham retornado ou superado os níveis pré-pandêmicos, persistem desigualdades regionais importantes e sinais de demanda reprimida, especialmente em procedimentos mais complexos. Os achados reforçam a necessidade de estratégias de reorganização e fortalecimento da rede de saúde auditiva, visando ampliar a capacidade instalada, reduzir desigualdades e garantir maior resiliência do sistema diante de futuras crises sanitárias.