Marcondes Cavalcante Franca Junior
Alexandra Prufer de Queiroz Campos Araujo
Fabiano Reis
Alberto Rolim Muro Martinez
Cristiane Araujo Martins Moreno
Suplentes
Paulo Ribeiro Nóbrega
Marcela Câmara Machado Costa
Ana Carolina Coan
Resumo
A atrofia muscular espinhal 5q (AME) é uma doença neuromuscular autossômica recessiva causada por variantes patogênicas bialélicas no gene SMN1, levando à degeneração progressiva dos neurônios motores do corno anterior da medula espinhal. A introdução de terapias modificadoras da doença, como nusinersena, risdiplam e onasemnogene abeparvovec, alterou significativamente a história natural da AME e evidenciou a necessidade de biomarcadores sensíveis e validados para monitorar progressão clínica e resposta terapêutica, especialmente em adultos com formas de início tardio, nos quais a deterioração funcional é lenta.
Esta tese investigou biomarcadores clínicos, neurofisiológicos, moleculares e de neuroimagem em adultos com AME 5q acompanhados no ambulatório de doenças neuromusculares da Universidade Estadual de Campinas, em delineamentos transversal e longitudinal de 12 a 14 meses. Os resultados foram organizados em quatro eixos temáticos.
No primeiro eixo, 21 pacientes não tratados foram avaliados por escalas motoras clínicas (MFM-32, HFMSE e RULM), desfechos relatados pelo paciente (MFIS) e biomarcadores neurofisiológicos, incluindo CMAP e MUNIX do músculo abdutor do dedo mínimo. A Medida de Função Motora (MFM-32) foi o único instrumento capaz de detectar declínio funcional significativo ao longo de 12 meses (p=0,02), além de apresentar a maior média de resposta padronizada (SRM=-0,55). A MFM-32 também mostrou as correlações mais robustas com os parâmetros neurofisiológicos avaliados (CMAP: ?=0,90; MUNIX: ?=0,75), apoiando sua utilização como desfecho primário em estudos clínicos com adultos.
No segundo eixo, investigou-se a expressão sérica do miRNA-206 por RT-qPCR em 28 pacientes e 11 controles saudáveis. Observou-se aumento aproximado de 13 vezes na expressão do miRNA-206 nos pacientes com AME em comparação aos controles (p?0,05). Entretanto, não houve correlação significativa entre os níveis do biomarcador e escalas motoras, parâmetros neurofisiológicos, fadiga, subtipo clínico ou status de tratamento. A análise longitudinal em 22 pacientes reavaliados após um ano também não demonstrou alterações significativas na expressão do miRNA-206, sugerindo utilidade diagnóstica, mas limitação para monitoramento evolutivo ou terapêutico em curto prazo.
O terceiro eixo compreendeu dois estudos de neuroimagem. No estudo da medula espinhal cervical, envolvendo 26 pacientes, verificou-se redução significativa da área de secção transversal total e da substância cinzenta cervical. A área de substância cinzenta apresentou correlações consistentes com múltiplas escalas motoras e com o CMAP (?=0,43?0,61). Alterações microestruturais por tensor de difusão foram identificadas em tratos sensoriais e no trato corticoespinhal lateral, indicando comprometimento estrutural além do neurônio motor inferior. No estudo de nervos cranianos, realizado em 22 pacientes, observou-se redução bilateral dos diâmetros do nervo facial, com correlações moderadas a fortes com as escalas motoras. A razão facial/trigeminal apresentou desempenho ainda mais robusto, distinguindo pacientes ambulantes de não ambulantes e aqueles com ou sem paresia facial clínica.
No quarto eixo, a fadiga foi investigada como desfecho relatado pelo paciente em 25 adultos com AME por meio das escalas FSS e MFIS. A prevalência de fadiga significativa foi de 60% no baseline e 56% após um ano. A fadiga não apresentou correlação com desempenho motor, parâmetros neurofisiológicos, idade ou duração da doença. Contudo, após um ano, a proporção de pacientes com fadiga foi significativamente menor no grupo tratado em comparação ao grupo não tratado (33,3% versus 75%; p=0,04).
Em conjunto, os biomarcadores avaliados apresentaram correlações transversais relevantes com medidas funcionais, confirmando sua relevância biológica. Entretanto, exceto pela MFM-32, nenhum foi capaz de detectar progressão significativa ao longo de 12 meses, refletindo a lentidão e a natureza multifocal da degeneração neuronal em adultos com AME. Os resultados sugerem que o acompanhamento dessa população deve integrar avaliação funcional, biomarcadores objetivos e desfechos centrados na perspectiva do paciente, além de exigir períodos de seguimento mais prolongados em futuros estudos clínicos.